AUTOR

Sonal Desai, Ph.D.
Diretora de investimentos,
Franklin Templeton Fixed Income
Kevin Warsh não apenas adota um discurso rígido, mas também age (ou melhor, voa) como um verdadeiro falcão. Desde que assumiu o cargo de presidente do Fed no final de maio, Warsh reiterou diversas vezes seu compromisso de trazer a inflação de volta à meta. Na semana passada, ele concretizou sua intenção ao liderar o Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) em uma decisão unânime de aumentar a taxa dos fundos federais.
Quando assumiu o cargo, muitos observadores presumiram que ele teria uma postura dovish. Acredito que muitos consideravam que ele havia sido comprometido desde sua nomeação pelo presidente dos Estados Unidos, Trump, que manifestara de forma bastante enfática seu desejo de ver taxas de juros mais baixas. Essas suspeitas, que nunca compartilhei, agora podem ser definitivamente descartadas. Como já defendi em artigos anteriores, Kevin Warsh é provavelmente o presidente do Fed com postura mais rígida que temos desde Paul Volcker.
Na minha opinião, a reunião do FOMC trouxe três importantes conclusões.
A primeira análise é que provavelmente veremos mais um ou dois aumentos de juros neste ciclo. Warsh apresentou uma avaliação otimista sobre as perspectivas econômicas, observando que a economia dos Estados Unidos vem se fortalecendo e que o componente de emprego do mandato do Fed está em boa situação, com risco de queda limitado. A inflação, por outro lado, permanece elevada há tempo demais, e os dados dos últimos meses não indicam qualquer sinal de desaceleração: pelo contrário, os riscos da inflação estão voltados para o alto, inclusive devido aos preços das commodities e à instabilidade geopolítica. Ele também reiterou que teria dificuldade em classificar as condições financeiras gerais como restritivas. Em resumo, uma avaliação bastante hawkish.
Isso é reforçado por dois sinais importantes. O comunicado do FOMC observou que o aumento da taxa elimina “uma dose de acomodação”, ponto que Kevin Warsh reiterou durante a sessão de perguntas e respostas com a imprensa. Isso sugere que provavelmente ainda há mais estímulos a serem retirados. Em resposta a uma pergunta, Warsh observou que vinha enfatizando de forma consistente o compromisso do Fed com a estabilidade de preços e que “a medida de hoje começa a mostrar que estamos levando isso a sério”, sendo que “começa” também sugere que esta pode ser a primeira de uma série de ações.
Isso também proporciona uma segunda percepção importante sobre a estratégia de comunicação do Fed sob Warsh. Warsh rejeitou o uso de orientação futura desde o primeiro momento, algo que ele reiterou nesta última coletiva de imprensa. Ao mesmo tempo, a linguagem mencionada acima parece indicar de forma bastante clara que novas altas de juros são possíveis, senão prováveis. Não vejo contradição nisso. As orientações futuras equivalem a um compromisso quase incondicional com futuras decisões de política; uma vez que essas expectativas são incorporadas pelo mercado, o Fed fica sem margem de manobra. O que o Fed parece estar fazendo aqui é um exercício de equilíbrio mais delicado: Uma mensagem clara sobre sua avaliação da situação econômica e a consequente orientação de política, aliada à compreensão de que futuras decisões de política também dependerão de novos dados e informações.
A terceira análise refere-se à forma como o Fed avalia e pondera os dados econômicos. Warsh destacou que o Fed sob sua liderança observa tendências e não se entusiasma com dados pontuais, sugerindo que os mercados financeiros e a mídia deveriam adotar a mesma postura. Acredito que isso levará algum tempo. É da natureza dos mercados financeiros buscar precificar imediatamente novas informações, sendo que dados sobre inflação, emprego e crescimento constituem informações altamente relevantes. Ainda assim, Warsh adverte que esse tipo de informação dificilmente influenciará as decisões de política no curto prazo.
Algumas outras considerações merecem destaque.
Investidores e analistas têm solicitado informações sobre a função de reação do Fed. Na minha opinião, Warsh agiu corretamente ao recusar fornecer uma, mas está oferecendo maior transparência sobre o processo de decisão do Fed: “uma disciplina e um conjunto de princípios”, como ele mesmo define. De modo geral, considero que esta coletiva de imprensa representa um passo inicial significativo para redefinir o diálogo entre o Fed e os mercados.
A política fiscal continua sendo o fator central que não pode ser ignorado. Ao comentar sobre a alta dos rendimentos de longo prazo, Warsh apontou como principais fatores a força da economia dos EUA, a concorrência por capital e o aumento do risco geopolítico. Sobre a competição por capital, ele destacou o papel dos investimentos relacionados à inteligência artificial: mas isso, implicitamente, ressaltou a importância das grandes necessidades de financiamento do Tesouro. Na minha opinião, caso não sejam solucionados, os grandes déficits fiscais dos Estados Unidos continuarão sendo uma fonte relevante de pressão altista sobre os rendimentos.
Acredito que também devemos levar a sério o compromisso de Warsh em reformular outros aspectos das operações do Fed. Aqui, eu me refiro ao trabalho contínuo dos grupos de trabalho em temas que vão desde dados, medições e avaliações da inflação, o impacto da inovação e a transmissão da política monetária.
O último elemento, a transmissão da política monetária, será especialmente digno de atenção. Na coletiva de imprensa do FOMC em setembro, Warsh afirmou que não vê conflito entre os objetivos de manter empregos e controlar a inflação. Em outras palavras, ele acredita que o Fed pode trazer a inflação de volta à meta sem afastar a economia do pleno emprego. Ele também afirmou que uma política monetária mais restritiva pode conter os efeitos secundários de choques de oferta e impedir que pressões inflacionárias mais amplas se espalhem pela economia. Estamos acostumados a pensar que isso exige alguma redução ou desaceleração da atividade econômica e, consequentemente, do emprego. Warsh rejeitou essa visão baseada na curva de Phillips, mas ainda não apresentou uma perspectiva alternativa sobre a transmissão da política monetária para a meta de inflação, o que torna esse tema interessante de acompanhar.
Tendência do núcleo do PCE permanece mais próxima de 3%

Fontes: BEA, BLS, Fed, Macrobond. Análise da Franklin Templeton Fixed Income. Dados de 21 de setembro de 2026. O PCE representa as despesas de consumo pessoal.
Os mercados financeiros reconheceram a mensagem hawkish do Fed. Nos próximos meses, na minha opinião, a combinação de risco geopolítico, pressão persistente sobre os preços de energia, crescimento econômico resiliente, necessidades expressivas de financiamento do Tesouro e um Fed que agora consolidou sua postura hawkish provavelmente continuará exercendo pressão de alta sobre os rendimentos. Além disso, acredito que provavelmente veremos mais volatilidade. O Fed está determinado a repensar elementos importantes de suas operações, que posteriormente precisará comunicar, e que nós, participantes do mercado, teremos de compreender e assimilar. Ainda é cedo, mas a transição para este novo regime do Fed já começou.
Essa mudança de regime traz implicações relevantes para o mercado. Depois de inicialmente caracterizar Warsh como dovish, o mercado agora passou, na minha opinião, para o extremo oposto, precificando até três aumentos adicionais de juros para o próximo ano. Embora eu considere altamente provável mais um aumento, ainda é muito cedo para prever com segurança se o Fed irá elevar os juros além disso e em que extensão. Com a ponta curta da curva possivelmente tendo avançado além do adequado e a ponta longa sujeita à concorrência por capital devido à elevada necessidade de financiamento do Tesouro e à emissão corporativa, vejo espaço para um maior acentuamento da inclinação da curva de juros e ainda não estou inclinado a aumentar significativamente a exposição à duração.
Os rendimentos reais elevados continuam tornando a renda fixa de alta qualidade atrativa, mas, na Franklin Templeton Fixed Income, entendemos que a oportunidade atualmente está mais relacionada à geração de renda do que à aposta em quedas expressivas das taxas ou em spreads de crédito ainda mais estreitos. Os fundamentos de crédito continuam, no geral, sólidos, mas os spreads estão estreitos, a inflação segue sendo um risco e a resiliência da economia tende a manter a política monetária restritiva por mais tempo. Isso indica a necessidade de disciplina tanto em relação à duração quanto ao beta de crédito. Em resumo: mantenha a renda; não assuma o risco do retorno esperando por um resgate macroeconômico, já que as taxas provavelmente permanecerão elevadas.
Dentro desse contexto, adicionaríamos crédito de grau de investimento de forma oportunista, especialmente em vencimentos intermediários e onde concessões em novas emissões melhorem os pontos de entrada, mantendo seletividade em alto rendimento e foco em fluxos de caixa resilientes e necessidades de refinanciamento administráveis. Títulos hipotecários emitidos por agências, títulos seniores de crédito estruturado de menor duração, alguns títulos antigos de crédito imobiliário comercial e oportunidades em mercados emergentes também podem agregar valor quando as avaliações oferecem compensação adequada pelos riscos de pré-pagamento, extensão,
QUAIS SÃO OS RISCOS?
Todos os investimentos envolvem riscos, incluindo a possível perda de capital.
Títulos de renda fixa envolvem riscos de taxas de juros, crédito, inflação e investimento, além de possível perda de principal. Conforme as taxas de juros sobem, o valor dos títulos de renda fixa cai. Títulos de alto rendimento com classificação baixa estão sujeitos a maior volatilidade de preços, liquidez e possibilidade de inadimplência.
Títulos de renda variável estão sujeitos a flutuação de preço e possível perda do capital.
Não há garantia de que qualquer estimativa, previsão ou projeção se realizará.
