PALESTRANTES

Sonal Desai, Ph.D.
Chief Investment Officer, Franklin Templeton Fixed Income
Uma tensão latente entre a política monetária e a política fiscal está se surgindo como um tema central a ser acompanhado pelos investidores financeiros.
O Secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, causou impacto ao anunciar recentemente que o Tesouro, nos próximos meses, pelo menos dobrará o volume de recompra de títulos de dívida de longo prazo. Ele defende que os rendimentos de longo prazo não refletem os fundamentos, sugerindo que a intervenção do Tesouro visa restabelecer o funcionamento adequado do mercado. Isso gerou muitos comentários, a maioria dos quais, na minha opinião, não foi precisa. Alguns compararam a medida a intervenções anteriores do Fed, debatendo se ela se parece mais ao afrouxamento quantitativo ou à “Operação Twist”, e sugerindo que o Tesouro estaria, na prática, assumindo parte das funções do Fed.
Isso, como mencionei, não aborda a questão fundamental: Esse tipo de intervenção do Tesouro é irrelevante, a menos que o déficit fiscal seja reduzido. Enquanto o governo continuar operando com um déficit excepcionalmente elevado para padrões de tempos de paz, o Tesouro precisará emitir cada vez mais dívida. Esse tipo de intervenção se assemelha menos ao afrouxamento quantitativo e mais a uma simples reorganização das cadeiras no convés de... bem, melhor não irmos tão longe. Contudo, os mercados percebem que o governo não demonstra intenção de reduzir os gastos e, ao somar o custo do conflito com o Irã e os reembolsos das tarifas, estamos caminhando para outro grande déficit neste ano e um ainda maior no próximo.
A situação fica ainda mais vulnerável devido à gestão da dívida notavelmente inadequada dos anos anteriores. O prolongado período de taxas de juros historicamente baixas após a crise financeira global e durante a pandemia de COVID-19 representou uma oportunidade excepcional para alongar o prazo de vencimento da dívida em circulação, oportunidade essa que foi inexplicavelmente desperdiçada pelos Secretários do Tesouro anteriores. Agora estamos arcando com as consequências, com 67% da dívida em circulação com vencimento inferior a cinco anos e 54% inferior a três anos.
Gestão inadequada da dívida (2023-2024) com o Tesouro emitindo títulos de curto prazo durante a inversão da curva de juros
2020-2026

Fontes: Tesouro americano, Fed, NY Fed, Macrobond. Análise pelo Franklin Templeton Fixed Income Research. Dados de 28 de agosto de 2026.
O motivo subjacente é que, nos últimos 15 anos aproximadamente, a política monetária frequentemente assumiu responsabilidades que caberiam à política fiscal. A julgar pelo discurso do presidente do Fed, Kevin Warsh, em Jackson Hole, esse não será mais o caso.
Warsh estava sob pressão para fornecer maior clareza sobre a futura condução da política monetária do Fed. Muitos analistas, comentaristas e participantes do mercado argumentaram que, ao conduzir o Fed para longe da orientação futura, Warsh precisa ao menos esclarecer a função de reação do banco central.
Ele recusou esse pedido de forma elegante e convincente, argumentando que a compreensão do Fed sobre a economia está longe de ser suficientemente precisa para que a política monetária possa ser reduzida a uma simples regra mecânica. “Os fatores mais relevantes para a condução adequada da política monetária mudam ao longo do tempo”, observou ele, “e, portanto, não podem ser todos resumidos em uma regra matemática pré-determinada.” Ele reiterou que a orientação futura fora de uma situação de crise limita a atuação do banco central e resulta em decisões de política monetária inferiores, como ocorreu na reação tardia à alta da inflação em 2021.
Seu discurso, contudo, trouxe clareza contundente sobre diversos pontos importantes.
Primeiramente, ele observou que, embora a revolução da inteligência artificial (IA) possa ter consequências expressivas para a produtividade futura, o crescimento e as pressões inflacionárias, ela não terá impacto sobre as decisões de política monetária do Fed no curto prazo. Isso deve dissipar temores de que o otimismo em relação à inovação possa ser utilizado como pretexto para uma postura acomodatícia de política monetária.
Em segundo lugar, ele ressaltou que 2% no deflator de despesas de consumo pessoal (PCE) é “uma meta fixa e firme” que o Fed deve cumprir. O banco central se empenhará em desenvolver medidas de inflação mais confiáveis e pontuais, mas isso não será utilizado para justificar o problema inflacionário.
Em terceiro lugar, ele afirmou que o foco principal do Fed neste momento deve ser nos preços, já que a inflação continua persistentemente acima da meta, enquanto o mercado de trabalho aparenta estar em pleno emprego em um contexto de economia bastante resiliente. Além disso, ele argumentou que os mercados financeiros, incluindo crédito, empréstimos e ações, indicam que as condições financeiras ainda permanecem relativamente favoráveis.
Ele resumiu tudo em uma conclusão igualmente clara: A menos que o Fed possa ter “confiança de que a inflação subjacente está convergindo para nossa meta, de forma clara e em ritmo suficiente”, será necessário agir.
Resumindo: A principal preocupação do Fed neste momento deve ser a inflação e, até agora, não há evidências convincentes de que a inflação subjacente esteja convergindo para a meta com rapidez suficiente. A menos que isso mude, cabe ao Fed agir, e seu principal instrumento deve ser a taxa básica de juros.
Não se trata de uma orientação futura, mas eleva a importância das próximas reuniões de política monetária do Fed. A menos que o cenário inflacionário melhore de forma expressiva, será difícil para o Fed justificar a não elevação das taxas de juros.
Os mercados financeiros aceitaram essa postura rígida ao pé da letra. A reação imediata foi o achatamento da curva de juros dos títulos do Tesouro, com um aumento expressivo nos rendimentos de curto prazo.
O achatamento de baixa indica que os investidores estão atentos à política fiscal. Warsh observou que, entre os sinais não filtrados que o Fed gostaria de obter dos mercados financeiros, estão “os preços e os volumes de negociação dos títulos do Tesouro”. Essa afirmação contrasta fortemente com a alegação de Bessent de que os rendimentos dos títulos do Tesouro dos EUA de longo prazo não refletem os fundamentos. Warsh também afirmou que “o dinheiro importa”, um lembrete enfático de sua posição de que o balanço do Fed deve ser reduzido, limitando o papel do Fed como detentor da dívida pública.
Se o governo deseja reduzir o custo de sua dívida, será necessário analisar cuidadosamente seus próprios fundamentos e reduzir o déficit fiscal para níveis mais sustentáveis. Até lá, a elevação das necessidades de financiamento do governo, aliada ao aumento da emissão de dívida para financiar investimentos em IA, tende a manter uma pressão persistente de alta sobre os rendimentos.
QUAIS SÃO OS RISCOS?
Todos os investimentos envolvem riscos, incluindo a possível perda de capital.
Títulos de renda fixa envolvem riscos de taxas de juros, crédito, inflação e investimento, além de possível perda de principal. Conforme as taxas de juros sobem, o valor dos títulos de renda fixa cai. Títulos de alto rendimento com classificação baixa estão sujeitos a maior volatilidade de preços, liquidez e possibilidade de inadimplência.
Títulos de renda variável estão sujeitos a flutuação de preço e possível perda do capital.
Não há garantia de que qualquer estimativa, previsão ou projeção se realizará.
WF: 12318161
