PALESTRANTES

Frederico Sampaio, CFA
CIO de Renda Variável
Franklin Templeton Investimentos Brasil
O mês de dezembro se mostrou um pouco mais agitado que o normal. O desempenho dos mercados de ações nos países desenvolvidos foi bastante negativo no período (S&P 500 -5,90%). Como esperado, a política monetária nas principais economias continuou sendo o foco das atenções. O FED permaneceu hawkishapesar dos dados de inflação encorajadores e o aumento das taxas de juros em 50 pbnos EUA representou uma desaceleração em comparação com as reuniões anteriores, mas veio acompanhado de uma sinalização bastante clara de uma taxa terminal mais alta e estável por mais tempo. Na Zona do Euro, o Banco Central Europeu (BCE) também abrandou o ritmo de subida para 50 pontos básicos, elevando a taxa de depósito para 2,00% (nível mais elevado desde dezembro de 2008). O BCE também surpreendeu ao sinalizar um intenso aperto monetário para as próximas reuniões, tônica mantida também por outros bancos centrais de mercados desenvolvidos. Na China, o índice de contaminação pela Covid-19 continua no radar e o país sinalizou mais medidas pró-crescimento para estabilizar a economia em meio às esperanças de reabertura, assim como promessas do Banco Central quanto a novas medidas para neutralizar riscos no setor imobiliário.
No Brasil, o Congresso Nacional aprovou em dois turnos, emenda à Constituição que amplia o teto de gastos em aproximadamente 1,5% do PIB apenas para o ano de 2023. Apesar das mudanças propostas serem menores do que as desejadas pela equipe de transição, o impacto fiscal ainda assim é elevado e irá demandar medidas adicionais para conseguir estabilizar a dívida pública. As indicações dos principais nomes para compor o gabinete do governo Lula a partir de 2023 também foram foco de atenção. A confirmações do ex-prefeito Fernando Haddad para a Fazenda e de Aloizio Mercadante no BNDES foram mal recebidas pelo mercado.
Outro ponto que trouxe bastante desconforto foi a facilidade com que a chamada Lei das Estatais foi derrubada na Câmara dos Deputados gerando um cenário de bastante desconfiança, e que refletiu em uma desvalorização do Índice Ibovespa em 2,45% no período, o que reduziu a alta do ano para apenas 4,7%. Já o índice de ações smallcaps caiu 14,8% em 2022. O real depreciou 4,2% no mês, mas ainda conseguiu terminar 2022 com apreciação frente ao dólar norte americano. No mercado de renda fixa, o CDS encerrou dezembro cotado a 254 pontos (+7 pontos no mês e + 50 pontos no ano). A curva de juros real voltou a apresentar alta nos vértices mais longos, com a NTNB 2050 rendendo IPCA+6,22% (+25pbs m/m). No espaço da política monetária, o Banco Central divulgou a ata da última reunião do Copom, quando a autoridade manteve a taxa Selic em 13,75% pela terceira vez consecutiva. Por ora, a estratégia do BC é manter a taxa Selic em patamar restritivo por um período suficientemente prolongado para garantir a convergência da inflação, porém o comitê também sinalizou que “não hesitará em retomar o ciclo de aperto monetário caso o processo desinflacionárionão ocorra conforme o esperado”.
Para 2023 vemos um cenário ainda bastante desafiador e incerto. No exterior os riscos de recessão ainda permanecem altos em meio aos juros das principais economias em território contracionista, o que aumenta as chances de revisões dos lucros das empresas para baixo. Também muito se fala da (potencial) reabertura econômica da China juntamente com a flexibilização da política de Covid-zero. No entanto, o mais provável é que os impactos sejam maiores para o setor de serviços do que o industrial propriamente dito, limitando o impulso na economia global.
No âmbito doméstico, os maiores riscos dizem respeito de como serão percebidas as novas orientações de política econômica e regras fiscais do governo recém eleito, indispensáveis para manter a sustentabilidade das contas públicas, ancorar as expectativas e manter aberta a possibilidade de corte nas taxas de juros pelo Banco Central. Além disso, será preciso encontrar uma forma de encontrar uma saída para a armadilha de crescermos apenas com a concessão de estímulos creditícios artificiais, que possuem baixa efetividade e curta duração.
A boa notícia disso tudo é que a solução desses desafios depende apenas de nós mesmos. Além do Brasil ser uma das economias mais verdes do mundo, o presidente Lula dispõe de grande cacife internacional e tem sido bem recebido pela maioria dos líderes globais. Ou seja, a pré-disposição para se investir no país existe. O que é preciso é uma agenda econômica pró business, controle dos gastos públicos e uma regra fiscal clara e duradoura, capaz de garantir a sustentabilidade da dívida pública.
Um feliz 2023!
Este material é meramente informativo e não deve ser considerado como recomendação de investimento ou oferta para a aquisição de cotas de fundos ou outros investimentos, nem deve servir como única base para tomada de decisões de investimento.
