Cenário político doméstico pesando novamenteJul 31, 2021

No mês de julho, os ativos financeiros brasileiros apresentaram desempenho negativo e se descolaram mais uma vez de seus pares internacionais. O pano de fundo comum a todos os mercados foram as preocupações acerca da evolução da variante delta da Covid- 19 e suas implicações para o processo de reabertura econômica mundial. Em relação ao mercado local, a tensão política continuou elevada e maiores receios de recaídas populistas na condução da política econômica impactaram o mercado. Nesse contexto, o Dólar voltou para o patamar de R$ 5,21 (+5%), a curva de juros aumentou significamente sua inclinação e os investidores estrangeiros retiraram recursos (saída líquida de R$7,06 bilhões). O Ibovespa recuou 4% e poucos setores apresentaram desempenho positivo.

Além do descolamento entre os ativos brasileiros dos seus pares internacionais, houve também um desvio entre o desempenho econômico de curto prazo e o comportamento dos preços dos ativos. No campo econômico, as revisões para melhor do crescimento do ano continuaram ocorrendo, a vacinação andou a passos largos e foi acompanhada pela queda da letalidade dos casos. Nesse ritmo, a campanha de imunização deve permitir o retorno da normalidade econômica até meados do 4º trimestre de 2021. Além disso, a temporada de resultados do 2º trimestral de 2021 vem corroborando essa recuperação. A maioria das empresas divulgou resultados acima ou em linha com as expectativas. As explicações para o descolamento parecem ser encontradas no quadro político, que denota a fragilidade do Governo que não consegue impor sua agenda sem concessões de cunho populista ao legislativo. As matérias da privatização da Eletrobras e do fundo eleitoral são exemplos dessa dificuldade e do risco que isso implica para o quadro fiscal.

Consideramos que a queda recente, associada à desvalorização da moeda, reflete em boa medida as incertezas no cenário político. Embora a recuperação econômica esteja se mostrando firme, o horizonte de médio prazo acaba sendo opaco, em virtude das eleições presidenciais de 2022. No nível de 124 mil pontos, o Ibovespa negocia abaixo de 12x o lucro projetado para 12 meses, desconto razoável para os pares emergentes, e maior ainda em relação aos desenvolvidos. O múltiplo equivalente do S&P 500 está em 25x o lucro. A eleição ainda está distante e a visibilidade é muito baixa. Parece razoável pensar que não devemos esperar que fatores domésticos motivem expansão de múltiplos até que essas incertezas se dissipem.