Risco político rouba a cenaFeb 28, 2021

CARTA MENSAL DO GESTOR DE RENDA VARIÁVEL

Em fevereiro, o desempenho dos mercados locais se descolou negativamente de seus pares globais. O Brasil já vinha apresentando performance inferior em decorrência da preocupação com o estado das contas públicas em uma perspectiva de aprovação do novo auxílio emergencial sem contrapartidas de cortes de despesas. Desta vez, se somou à questão a decisão intempestiva de troca do presidente da Petrobras e de redução da carga tributária sobre o diesel às custas de um aumento da contribuição sobre lucro (CSLL) sobre o setor financeiro. Essas intervenções, motivadas por agenda política, aumentaram a percepção de risco relativo ao país e afugentaram investidores locais e internacionais. Nesse contexto, o Dólar se valorizou 2,4% para R$ 5,60, a curva de juros se deslocou para cima (juro pré-fixado de 5 anos subiu 84 bps para 7,56%) e os spreads da NTN-B 2050 subiram para 4,23%.

A mudança na Petrobras veio em resposta ao aumento dos preços de combustíveis, que vem seguindo a paridade com os preços internacionais. Entre investidores, a preocupação é se medidas econômicas populistas voltarão e qual o grau de prestígio que a equipe econômica goza junto ao Presidente Bolsonaro. O fato é que as commodities apresentaram forte apreciação no período. O preço do Brent, em Dólares, avançou 18,3% para USD 66,13 e o índice de commodities CRB subiu 9,3%. A preocupação com a volta da inflação no contexto internacional tem alimentado os preços de ativos, que funcionam como proteção para o fenômeno em ambiente de juros baixos. Neste sentido, a curva de juros americana também começou a se inclinar mais.

Em uma situação normal, o quadro internacional de apreciação de matérias primas seria amplamente favorável ao Real em virtude de: (1) melhores termos de troca com valorização das exportações brasileiras e (2) entrada de investimentos em busca de exposição em ações do setor. Contudo, o país perde a oportunidade em função de sua fragilidade fiscal aliada ao destempero político. Devemos somar também a evolução da epidemia de Covid-19, que vem batendo recordes de casos/mortes e que deverá impor maior custo econômico devido à reimposição de lockdowns.

Em suma, a queda do mercado e da moeda fez a bolsa voltar a negociar em múltiplos bem atraentes de cerca de 13x o lucro projetado para 2021. Resta saber se os próximos eventos, de alguma forma, compensarão as recentes decisões equivocadas. Na lista, temos a PEC do auxilio emergencial, as novas direções da Petrobras e Eletrobras, privatizações e a reforma administrativa. Elas influenciarão em muito as expectativas dos investidores a respeito do último biênio do atual governo.